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A mediocridade da nossa democracia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.04.08

Contrariamente à auto-satisfação geral, desde a geração histórica que, de lágrima nostálgica, afirma a sua autoria, até aos mais jovens que já nasceram nela… não me revejo nesta democracia.

Acho que há uma análise e uma avaliação geral muito superficial destes 34 anos.

Por isso me agradou tanto o discurso de Paulo Rangel nas comemorações do 25 de Abril do ano passado! E, este ano, ver três jovens na tribuna, com um discurso que já apela à verdadeira cidadania e a uma democracia de qualidade, a uma nova consciência democrática abrangente (Verdes, BE e CDS/PP).

Numa democracia de qualidade os gestores do poder político tratam os cidadãos como cidadãos de pleno direito, prestam contas do que andam a fazer, justificam qualquer mudança de rumo, abrem o jogo.

Numa democracia de qualidade os gestores do poder político não se auto-elogiam ou enxovalham os opositores na Assembleia da República, porque respeitam os cidadãos que a Assembleia da República representa.

Numa democracia de qualidade não se utilizam discursos de lógica de feirante, como o discurso utilizado há uns meses, logo após a reunião extraordinária do conselho de ministros no Dia de Reis – os tais reis magos, lembram-se? –, pelo ministro das Finanças, de que já não iriam pedir mais sacrifícios aos portugueses. E esta é a linha com que irão tentar tecer a teia das ilusões para preparar as eleições em 2009. A moda pegou nos socialistas, todos cantam agora esta canção em uníssono.

Entretanto ontem, nas notícias da Antena 1, a informação de que ainda há 27.000 famílias em Portugal a viver em barracas. E há dois dias, na mesma Antena 1, a notícia de mais não sei quantos portugueses a trabalhar como escravos em Espanha! A polícia judiciária, que terá desmantelado esta rede de novos esclavagistas (em plena Europa dos tecnocratas…) terá mesmo comentado a completa ausência de respeito pela dignidade humana que esses indivíduos revelam…

Penso que estas notícias são a resposta correcta a estes discursos socialistas de que conseguiram controlar o défice e que terão terminado os sacrifícios para os portugueses. Uns vivem na pobreza, outros têm de emigrar nas condições mais precárias.

Discursos como estes são de uma superficialidade confrangedora que só nos podem deixar irritados com a fraca conta que revelam da nossa capacidade de raciocinar, fazer contas, analisar, etc.

Discursos como estes só demonstram o quanto ainda temos de pedalar para nos tornarmos uma verdadeira democracia.

Esta democracia que nos tentam montar, mesmo à frente do nariz, é a Feira das Pechinchas. Com a ajuda preciosa dos grandes meios de comunicação, já o disse aqui também: programas televisivos para consumo de massas, para os distraídos da vida e das coisas da cidadania; notícias de telejornal muito bem geridas e trabalhadas com a opinião política oficial, superficial e conformista. É claro que há excepções, mas são excepções.

Como uma feira de pechinchas, sempre enganosa, há que dar aos distraídos algumas novidades. Anúncios de isto e de aquilo. E isto ainda funciona. Verdade! Ainda funciona!

34 anos… A verdade é que na altura do 25 de Abril eu já tinha 16 anos e cabeça para pensar. E as minhas expectativas nunca foram muito elevadas. O que me foi salutar, apesar de tudo. É que desde cedo aprendi, por observação atenta e leituras várias, que o ser humano não é muito fiável.

Em breve fiquei esclarecida: a maioria silenciosa, a demissão de Spínola, a debandada dos portugueses de África, a histeria de Vasco Gonçalves, o Copcon…

A única abertura, a única inovação anímica e inteligente, vi-a em Sá Carneiro. Mas a esperança acabou depressa com a sua morte trágica. E com a mediocridade do que se seguiu… até hoje.

Com um breve intervalo: voltei a rever-me no rigor do governo de coligação PSD-CDS/PP que se seguiu ao abandono do barco por Guterres. Mal eu sabia que Durão Barroso iria fazer o mesmo e que Jorge Sampaio iria preparar uma cilada a Santana Lopes…

Portanto, não posso estar satisfeita com esta democracia. Nem posso dizer que nela me revejo. Como cidadã deste país, detesto ser tratada como uma imbecil cujo voto é a única coisa que querem de mim.

Por outro lado… Vejo sinais de mudança, nos mais jovens. E isso é refrescante e animador. Discurso inteligente, fundamentado, rigoroso, aprofundado. De pessoas habituadas a pensar, a observar, a questionar.

 

publicado às 12:14

Os verdadeiros desafios do PSD

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.04.08

Vemos, a par de jovens a reclamar uma nova postura e cultura democrática no país, outra atitude mais reducionista e belicosa de conquista de poder. Ora, esta atitude já não tem sentido numa democracia de qualidade.

O PSD não se deve posicionar da mesma forma, tradicional, da lógica do poder em alternância, como o fez Luís Montenegro nas comemorações do 25 de Abril.

Espero que abram os olhos. Que olhem bem à sua volta. O que está em causa agora é a própria viabilidade do país e isso é uma enorme responsabilidade.

Porque é que acham que surgiu toda esta expectativa em relação à eleição do próximo lider do PSD? Porque pode vir a ser o próximo primeiro-ministro, se conseguir incorporar uma esperança, baseada num modelo para o país.

Devem virar-se agora para o futuro. Não desperdiçar energias e possibilidades. Analisar bem os seus pontos fortes, as suas mais valias, sem preconceitos nem compromissos individualistas, e pensar numa dimensão mais abrangente, no colectivo para um colectivo.

Vivemos numa nova era de trabalho de equipa, de comunicação, de debate de ideias e colaborações diversas, em que o que passa a contar é a inteligência colectiva. Não compreender isto é estar fora de prazo, como referi. O tempo dos lideres solitários, centralizadores, individualistas, que controlam e manipulam, esse modelo do marketing pessoal, da imagem… não tem futuro.

O que é verdadeiramente actual e virado para o futuro é outra postura, uma lógica completamente diferente. É claro que exige outra maturidade, mais socializada, mais receptiva e empática, e uma consciência mais abrangente, articulada, analógica.

Insisto: não escolheria o próximo lider em função de quem está melhor posicionado para vencer o actual primeiro-ministro. Colocava a questão noutra dimensão: escolheria quem pode apresentar aos cidadãos um modelo e projecto credíveis de país, de uma construção colectiva para um colectivo, de esperança, de futuro.

Um país de pessoas para pessoas. Não este país que nos estão a construir, metade mega-cidades e metade deserto, de grandes negócios e grandes estruturas de betão, de turismo para europeus ricos mas inacessível aos próprios habitantes que têm de emigrar. Um país onde os nossos jovens comecem a ter reais oportunidades, trabalho qualificado e valorizado; os reformados o acesso à saúde, ao convívio, à actividade e ao bem-estar desejáveis; as famílias a possibilidade de investir no futuro dos filhos e numa qualidade de vida, etc. etc.

Podem dizer-me: e isso é exequível?                                                    

É simples: Alguém algum dia imaginou que, ao longo destes anos, o Estado iria conseguir desbaratar energias e dinheiro, à frente do nosso nariz, e ninguém teria de prestar contas por isso? Alguém algum dia imaginou que os cidadãos iriam apostar num governo, dar-lhe a maioria absoluta, e depois aceitar que os compromissos fossem completamente ignorados? Alguém achava possível estes malabarismos do Estado para sugar os cidadãos e no final apresentar tão fracos resultados?

E no entanto… isso foi possível. Tudo isso aconteceu. A única coisa com que nos podem acenar é com o controlo do défice. Mas a quem o devem? Aos cidadãos portugueses. E vejam o preço que todos tiveram de pagar. E que ainda terão de pagar, porque uma economia sem genica, liofilizada, aos soluços e solavancos… primeiro que ganhe andamento… vai demorar…

O país como está e com o rumo que leva, não tem futuro. Pelo menos, para os cidadãos portugueses. Há que virar a página, com novas mentalidades, que entendam a nossa época e os seus grandes desafios.

É de esperança e de futuro que os cidadãos precisam. Mas não à Obama, ou à Berlusconi. É de esperança e de futuro, com a verdade, a realidade, a ideia de colectivo, de unir esforços, para um projecto, um modelo viável e exequível de país.

 

publicado às 16:15

Que Europa nos estão a preparar os tecnocratas?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.04.08

Sim, que Europa nos estão a preparar os tecnocratas? A quem realmente interessa que haja europeus que não estão habilitados a participar na construção da Europa, que só contam como números, estatisticamente, isto é, não contam como cidadãos de pleno direito?

Para disfarçar esta distorção de não contarmos como cidadãos de pleno direito mas apenas estatisticamente, e porque estamos perto de eleições, vão haver debates pelo país, ouvi recentemente na Antena 1, a nível de autarquias, sobre o Tratado de Lisboa (a que eu chamo Código de Lisboa). Já é um passo. Mas o passo decisivo não lhes interessa: ascendermos a cidadãos. Seria arriscado, pelos vistos…

E hoje ratificam o Tratado no parlamento… Tanta expectativa criada para nada. A Europa é deles, assim como a festa em azul foi deles… Afinal, estão a construir uma Europa de tecnocratas para tecnocratas, dos grandes interesses e dos grandes negócios. Nós, os cidadãos, só fazemos parte de um cenário folclórico neste filme de qualidade duvidosa, onde falta a energia, a criatividade, a vida afinal.

Às vezes tento projectar-me no futuro. Pego nos sinais e sintomas à minha volta e projecto tudo isso uns anos à frente. E que Europa vejo eu? Duas Europas: a administrativa e a dos cidadãos; a dos tecnocratas e a das pessoas reais; a do poder e dos grandes negócios e a da criatividade e das novas comunidades.

Um dos sinais: os cidadãos, entregues a si próprios, já estão a criar pequenas comunidades virtuais para resolver as suas questões, desde a informação à participação activa. Algumas destas comunidades podem mesmo constituir-se a nível regional ou local.

Ironicamente, os tecnocratas que agora se estão a defender dos cidadãos, através de um Tratado encriptado, irão deparar-se em breve com dois mundos: o seu, em gabinetes, em reuniões, em negociações secretas; e o dos cidadãos e as suas novas formas de gerir a sua vida, à revelia do seu controlo.

Inevitavelmente irão emergir à sua frente e fora do seu controlo, pequenas bolhas efervescentes de ideias, tudo o que o pragmatismo tecnocrata abomina, quando não serve os seus interesses: o pensamento, a autonomia, a criatividade. 

Pode parecer impossível, até porque os tecnocratas, com o alibi do terrorismo internacional, estão a construir formas de controlar toda a vidinha de qualquer cidadão comum e as tecnologias de ponta servem-nas na perfeição: cartões de cidadão, registo de ADN, a loucura total… Mas as novas tecnologias, aliadas a uma enorme criatividade a emergir e a novas formas de comunicação, também podem permitir ao cidadão europeu criar um espaço vital, com alguma liberdade de movimentos, e comunidades que funcionem como suporte social.

É que não existindo coesão social – e não me refiro apenas à questão financeira, mas à cultural também, à ausência de perspectivas, de pertença ao grupo alargado, quando está vedada a participação –, podem repetir-se as cenas de violência urbana de Paris (que entretanto se alastraram a outras cidades em França). Isto aconteceu em plena Europa.

As fronteiras políticas poderão esbater-se um pouco, mas renascerá uma forte consciência regional e local, de tudo o que é genuíno, as raízes históricas e culturais, as bases concretas da identidade; da pertença grupal; e da participação activa. Fundamentais na natureza humana.

Não me parece muito longínquo o cenário (irónico, aliás), de ver fortalecidas novas consciências globais com um pendor religioso e voluntarioso, para preencher o vazio que não combina nada com a natureza humana, aliás, é absolutamente anti-natura.

E isso é que é irónico: o mundo modernaço e laico que os grandes negócios e as empresas monopolistas têm promovido para consumo de cidadãos distraídos, deu neste vazio de ideias, de valores, de paixão, de vida real.

Claro que há sempre o lado negro do cenário: o aumento inevitável, e de complexidade crescente, da criminalidade, apoiada igualmente nas novas tecnologias. Basta ver os telejornais: pedofilia; tráfico de pessoas; raptos; violência urbana; gangs juvenis… 

Por enquanto os tecnocratas estão mais preocupados com o terrorismo à escala internacional e têm razões para se preocupar. Mas já repararam que lhes falta uma visão realmente global do seu papel no cenário internacional?, que não têm revelado, até agora, competência e criatividade para lidar com situações difíceis? Mas, claro!, eles são os iluminados em quem os cidadãos devem depositar total confiança, não votando, não participando.

 

 

publicado às 16:13

Que modelo de país é este?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.04.08

Que modelo de país é este? Que país se está a construir? Que espécie de país? Um país de betão, de auto-estradas, pontes e TGVs? De Alquevas, de campos de golfe, de grandes complexos hoteleiros? De hélices ao vento e painéis solares?

Como vêem, não me estou a queixar, nem a lamentar, nem a irritar, estou a perguntar. Este é o West Coast of Europe do Minho ao Allgarve e este é o blogue que tem estado neste cantinho sossegado.

Será mesmo este o “canteirinho” (1) que merecemos?

Louis Pawell e Jacques Bergier citam, no “Despertar dos Mágicos”, um filósofo russo penso eu, que afirmava de forma bem inquietante, que não nos acontece o que merecemos mas o que se nos assemelha.

Voltemos à questão inicial: Que modelo de país é este? Que país se está a construir?

Como referiu António Borges, dia 17, na entrevista a Judite de Sousa na RTP1, estes grandes empreendimentos são “extravagantes” e certamente não é isto o que o país precisa. Seria precisamente apostar nas pessoas, nos empreendedores, nas empresas. Alertou igualmente para esta preocupante “rede de dependências” das empresas em relação ao Estado, criadas por este governo. Ora o caminho é completamente outro: no sentido da autonomia das empresas.

Julgo que não é preciso ser economista para perceber isto: são as empresas que dinamizam a economia. E actualmente vemos apenas vingar os grandes negócios. E isto é preocupante.

A minha esperança está precisamente numa nova consciência e visão abrangente, dinâmica e articulada, que coloca as pessoas, a cultura e o futuro económico da região nas suas prioridades, que começamos a ver numa nova geração de presidentes de Câmara e de Juntas de Freguesia.

É que a viabilidade do país passará inevitavelmente pela regionalização. E aqui estou de acordo com o que disse há uns tempos Lobo Xavier, numa Quadratura do Círculo, na Sic Notícias: a regionalização responsável pode até ficar mais económica e ser muito mais eficaz do que esta centralização do poder em Lisboa.

E não esquecer que Lisboa já está a perder terreno em relação ao Porto no dinamismo e na criatividade. Claro que ultrapassar esta resistência de séculos – esta sim, um verdadeiro obstáculo ao desenvolvimento equilibrado do país e até mesmo à sua viabilidade –, será muitíssimo difícil. Mas não impossível.

 

(1) designação poética e carinhosa do país, por Padre António Vieira.

 

publicado às 15:49

Precisamos de um primeiro-ministro para o país real!

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.04.08

Precisamos de um primeiro-ministro para o país real! É que esta ficção vai-nos sair caríssima!

Tudo bem, tudo bem, na Itália têm agora o Berlusconi e a ficção parece que está a dar… Tudo bem, nos EUA podem até vir a ter o Obama, mais uns pontos a favor da ficção…

Mas nós somos este “canteirinho” da West Coast of Europe, já esqueceram? E estamos em péssimo estado financeiro e psicológico, quase impróprios para consumo…

A meu ver, mas é apenas a minha opinião, acho que é de evitar dar continuidade a este pragmatismo tecnocrata que se guia pelo marketing político. Os Berlusconis e os Obamas desta “sociedade-espectáculo” não levam a lado nenhum, pelo menos não levam à construção de um país real.

E qual é o perfil que gostaria de ver no próximo primeiro-ministro, no tal para o país real?

Em primeiro lugar, uma visão do país como projecto viável. Uma visão abrangente, dinâmica, articulada, que se move e interage numa dimensão mais vasta, a organização europeia. E tudo isto em articulação dinâmica com uma realidade global. Além disso, a visão de um país de pessoas para pessoas (só assim existe e é viável).

Dimensóes da personalidade fundamentais: estabilidade; maturidade; sentido de responsabilidade. Esta maturidade, que implica a empatia, garante-nos, à partida, que gosta de pessoas e que é para pessoas que irá governar. Também nos dá alguma segurança quanto à sua receptividade: saber ouvir e perceber, para se antecipar e prevenir.

Além disso, o sentido de responsabilidade permite-lhe valorizar de um modo mais abrangente o que está em jogo: a viabilidade dopaís, entalado em interesses obscuros e numa Europa “misteriosamente encriptada” à prova de cidadãos.

É importante estar atento e preparado para intervir no timing adequado. E não governar centrado em si próprio e no poder. Alguém cuja afirmação não se baseia na aprovação exterior saberá efectuar uma auto-avaliação realista sobre o seu próprio desempenho, sem se preocupar apenas com sondagens de opinião.

Na liderança deve ser excelente, assim como na gestão de recursos humanos e na mobilização de inteligências e vontades. Terá, além disso, de ser um óptimo negociador nos dossiers mais difíceis (e vão surgir no cenário dossiers bem difíceis).

E, claro, capacidade de organização: definição das metas, dos caminhos, das estratégias. Focalização nas prioridades e formas de as concretizar.

Fundamental ter umasólida convicção política: a sua acção governativa deve basear-se num conjunto de princípios e valores orientadores, consistente e credível, que já tenha dado provas da sua aplicabilidade – social-democracia, democracia-cristã, etc. –, e que os cidadãos consigam identificar e perceber. (É que dizer-se de esquerda e socialista e governar de forma liberal – em que o Estado é uma empresa cotada em bolsa a alargar a sua rede de influências –, sem princípios coerentes ou valores sociais, só confunde os cidadãos e desacredita os políticos.)

E finalmente, umainformação actualizada, baseada em estudos e propostas científicas e credíveis nas áreas sociais – economia, sociologia, psicologia social –, que ajudam a olhar para a razão de ser de qualquer país, que são os seus recursos humanos.

O que temos agora? O pragmatismo tecnocrata:

O pragmatismo tecnocrata guia-se pelo marketing político. Como uma qualquer empresa cotada em bolsa, faz estudos de mercado e orienta a sua rota para se manter no poder. E entretanto constrói pacientemente a sua rede de influências que lhe serão úteis em lugares-chave e timings adequados.

Para este modelo de governação, o ideal é o perfil do tecnocrata: uma inteligência analítica, fria, que valoriza o poder pessoal; perito na manipulação, geralmente pela intimidação; autoritarismo; dificuldade de controlo emocional; agressividade; ausência de empatia. Todo o confronto de ideias é visto numa lógica de poder.

Verificamos, de facto, no tecnocrata, uma sede de poder, insaciável. E uma necessidade de controlo (de informação, de dados, de números, de imagem). E uma obsessão  pelo “sucesso”, pela “tecnologia”, pela “inovação”, pelas “boas práticas”, etc. O marketing fascina-o! Ao ponto de sobrepor a ficção (que lhe é favorável) à realidade (incómoda e fora do seu controlo). Nesta lógica de marketing político, a ideologia de base serve apenas como guião para frases publicitárias, repetidas até à exaustão para pegar, como um painel ou ecran luminoso.

Movimenta-se à vontade no meio de outros tecnocratas e é um óptimo negociador em determinados dossiers, embora sempre na perspectiva que lhe é mais favorável. Centrado no seu própriopoder, falta-lhe a consciência e a visão mais abrangente e dinâmica, de tudo o que está em jogo. E dificilmente percebe os sinais da realidade, sobretudo quando não encaixam nos seus planos.

O tecnocrata não consegue comunicar com os cidadãos comuns, a mensagem não passa. E sente-se incomodado com a sua presença. A resposta, naturalmente, é a reacção agressiva dos cidadãos, os apupos. É que são duas realidades paralelas, que nunca se irão cruzar. São duas dimensões diferentes: a ficção e a realidade; o palco e a vida.

 

publicado às 12:33

Organizar socialmente o desejo, o afecto e a continuidade da espécie

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.04.08

Coloquei aqui o casamento no plano mágico, no plano fantástico. E no entanto… vejam só o que este compromisso permite: organizar socialmente o desejo, o afecto e a continuidade da espécie. No plano real. (ver: Nota)

Como é que uma pequenina organização consegue, em si mesma, conciliar dois planos de natureza tão diferente, é um verdadeiro mistério…

É ou não verdade que há qualquer coisa de mítico num compromisso baseado em desejo, afecto, afinidade, cumplicidade, partilha de projectos, e ainda por cima vitalício?

É que a natureza humana é o mais volátil que há. Carente, caprichosa, mutável, exigente, insatisfeita e às vezes insaciável… Características que à partida não combinam muito bem com a estabilidade a dois e depois a três (a nova geração dos filhos únicos…)

E numa época, como a actual, em que o casal não tem o suporte afectivo e emocional de um clã familiar ou de amigos próximos ou da comunidade, as expectativas em relação ao outro passam a ser irrealistas.

E agora reparem nisto: se se inicia de forma mágica, no desejo e no afecto – e há quem diga que numa boa dose de insanidade mental temporária, um aminoácido qualquer que se alastra pelos neurónios, em áreas localizadas e muitíssimo eficazes –, tem de encontrar a partir de certa altura uma forma mais concreta de se organizar e integrar socialmente. É assim que surge o casamento, como uma dessas formas possíveis.

Há quem defenda, aliás, que é a melhor base da organização social. A mais eficaz, ecológica, gratificante, saudável, benéfica, estável…

(Não deve ser essa a ideia do poder político actual, porque em vez de investir na prevenção do desastre, está a apostar nos cacos, a facilitar a ruptura sem proteger a parte mais frágil, a criança e, muitas vezes, a mulher também.)

Seria, pois, interessante analisar as razões mais frequentes para a desestruturação do casal e da família.

Uma situação financeira precária não terá uma influência muito maior do que a que se lhe dá? Uma família sempre à beira de um ataque de nervos para pagar as contas do crédito à habitação, dos bens essenciais, da gasolina e transportes, da educação dos filhos, do fisco… pode realmente viver na segurança e no bem-estar necessários para a sua estabilidade?

E não é triste que as famílias gastem as suas energias – e na fase das suas vidas em que poderiam investir em actividades criativas e gratificantes em conjunto –, a fazer contas à vida?

(E ainda por cima quando a própria sociedade lhe coloca à frente do nariz modelos de vida puramente materialistas e de um novo-riquismo de péssimas fundações! E o próprio poder político, que promove à sua frente estes “modelos de sucesso”: os tais que projecta pelo mundo como se as nossas melhores credenciais fossem possuir contas bancárias chorudas e vidas artificiais!)

É necessária uma visão mais abrangente e dinâmica, virada para o futuro, para a esperança, para a viabilidade do país, e que invista no casal e na família. A meu ver, o casamento é a melhor forma de se organizar socialmente o desejo, o afecto e a continuidade da espécie. Isto até se inventar outra melhor.

(Nota: Inspirei-me aqui no fantastic level e no realistic level da peça de Tennessee Williams, A Noite da Iguana, que John Huston captou de forma magnífica. Simplesmente genial esta distinção de dois planos que convivem na natureza humana… e às vezes de forma bem contraditória.)

 

publicado às 12:03


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